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Sexta-feira, 18 de Maio de 2012

O Silêncio


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

Sexta-feira, 11 de Maio de 2012

Reza da manhã de maio


Senhor, dai-me a inocência dos animais
para que eu possa beber nesta manhã
a harmonia e a força das coisas naturais.

Apagai a máscara vazia e vã
de humanidade,
apagai a vaidade,
para que eu me perca e me dissolva
na perfeição da manhã
e para que o vento me devolva
a parte de mim que vive
à beira de um jardim que só eu tive.

Sophia de Mello Breyner Andressen - Obra Poética - Dia do Mar

Domingo, 6 de Maio de 2012

A minha vida é a maior empresa do mundo











Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar algumas vezes irritado,
mas não esqueço que a minha vida é a maior empresa do mundo.
E posso evitar que ela vá à falência.
Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver,
apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.
Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se autor da própria história.
É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis
no recôndito da tua alma.
É agradecer a Deus em cada manhã pelo milagre da vida.
Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos.
É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um “não”.
É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.
Pedras no caminho? Guardo-as todas, um dia vou construir um castelo…

Fernando Pessoa

Terça-feira, 1 de Maio de 2012

Terça-feira, 24 de Abril de 2012

Já Foste Rico e Forte e Soberano

Já foste rico e forte e soberano, já deste leis a mundos e nações, heróico Portugal, que o gram Camões Cantou, como o não pôde um ser humano! Zombando do furor do mar insano, os teus nautas, em fracos galeões, descobriram longínquas regiões, perdidas na amplidão do vasto oceano. Hoje vejo-te triste e abatido, e quem sabe se choras, ou então, relembras com saudade o tempo ido? Mas a queda fatal não temas, não. Porque o teu povo, outrora tão temido, ainda tem ardor no coração. Saúl Dias, in "Dispersos (Primeiros Poemas)"

Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

Uma sociedade pacífica de revoltados



"É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente, uma sociedade pacífica de revoltados"
Miguel Torga, Diário (17.09.1961)
Imagem -(Operários de Tarsila do Amaral

Domingo, 1 de Abril de 2012

Portugal


Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
e torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
e descubro na bruma o meu destino
que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
surdo às razões do tempo e da fortuna,
achar sem nunca achar o que procuro,
exilado na gávea do futuro,
mais alta ainda do que no passado.

Miguel Torga, in 'Diário X'